
Brincando de bonecas
- Parabéns pra você, nesta data querida,muitas felicidades, muitos anos de vida. Bom dia, minha princesa, trouxe um presente para você!
- Oba!! Bom dia mamãezinha. O que é?
- Abra, você vai gostar.
- Olha, que linda, é um bebê! Ah, obrigada mamãezinha, você vai me ajudar a cuidar dela?
- Claro que sim, minha linda, vamos dar banho, trocar a fraldinha, levar para passear, alimentar, dar muitos beijinhos.
Laurinha era o nome do meu bebê. Minha mãe e eu, cuidávamos muito bem da Laurinha, íamos ao shopping, trocávamos a roupinha, colocávamos para arrotar, fazíamos muito carinho. Laurinha e eu, éramos inseparáveis. Nós éramos tão amigas, que as vezes eu podia jurar que era falava comigo.
Os anos foram passando e a Laurinha foi ficando de lado. Troquei minha bebê pelos baile funk escondido, pelo whats app, pelos encontros com os amigos, pela internet. Mesmo contra a vontade da minha mãe, que me vivia dizendo não, dizia para segurar a periquita, dizia para chegar cedo em casa, para focar nos estudos, vigiar a balança, visitar a igreja, se abrir mais com ela. Minha mãe era uma super mãe, muito amiga e coruja, mas eu não soube aproveitar todo o carinho e proteção. E hoje, estou aqui diante uma lata de lixo, tomando coragem para jogar fora meu bebê, no mesmo parque que eu costumava brincar com meus pais, nas tardes de domingo que eu tanto gostava. O que era alegre, agora está muito triste.
Hoje tenho 16 anos de conflitos, incertezas e a solidão. Esses sentimentos convivem comigo diariamente, desde o dia da minha festa de 15 anos, que fugi no meio da noite.
Meus pais gastaram uma fortuna com a festa, estava tudo perfeito, o bolo, a decoração de princesa, limousine, meu vestido, o príncipe era lindo, tipo o Luan Santana, e o anel, perfeito. Depois da valsa, eu simplesmente fugi. Saí correndo com a roupa do corpo e fugi com meu namorado secreto. Estava tudo combinado. Eu achava que o amor em uma cabana era real. Acreditava em contos de fada e em príncipe e princesa, em amor eterno. Meus pais eram totalmente contra o namoro e eu namorava escondido, por isso achei melhor fugir para viver o nosso amor.
Foi uma loucura. Pedimos várias caronas, viajamos de cidade em cidade, acampamentos, albergues, já passamos a noite em um chiqueiro, na carroceria de um caminhão, no banco da praça, não importava o lugar, contando que estivéssemos juntos. Até o dia em que contei pro Hugo que estava grávida. Ele enlouqueceu, passou dias sumido, depois voltou e fomos pra casa do tio dele. Ele começou a beber, usar drogas, roubar, me bater, começamos a nos esconder não só dos nossos pais, mas também da polícia, dos traficantes que ele devia. Nossa vida virou um inferno. Passamos muita fome, apanhei muito, quase perdi o bebê. Por muitas vezes me arrependi de ter fugido, mas não tive coragem de voltar. Hugo foi preso, e nosso bebê nasceu no meio de um crise de desespero. Me dei conta que estava sozinha, abandonada e com muito medo. E hoje estou aqui, decidida a deixar ali o meu filho, ali, pra quem quiser pegar, por que sozinha, eu sei que não conseguir cuidar. Quando de repente alguém me tocou e disse com ma voz doce e entre lágrimas:
- Minha princesa linda, que bom que te encontrei! Todos os dias em que você sumiu, eu venho aqui, com a certeza de que um dia você iria voltar. Eu tinha certeza...
- Mãezinha, você está aqui !
entre soluços, se abraçaram.
- Você está bem, minha linda? O que aconteceu? O que pretendia fazer? Porque fugiu? Onde é que eu errei?
- Ah, mãezinha, senti tanta sua falta!! Como está papai e meus irmãos?! Ah, que saudade, você está com raiva de mim? Estava com tanta saudade..
- Claro que não minha querida, só queria entender o que aconteceu. Por que você não confiou em mim? Por que fugiu? E esse bebê? Parece uma bonequinha! Parece a Laurinha! Deixe-me pegar. Ai que linda!! Qual é o nome dela?
- Valentina. Mas eu não sei cuidar dela, pensei em deixar ela aqui, caso alguém queira pegar. Ela mama muito, chora de verdade e faz muito xixi e cocô. As vezes engasga e eu não sei o que fazer. É muito diferente da Laurinha..- Bem, vamos pra casa, me conte tudo, vamos cuidar da Valentina com muito amor. Vou te ajudar, mas a responsabilidade é toda sua e você precisa me prometer que vai voltar pra escola, continuar o curso de informática e inglês.
- Eu prometo. Mãezinha, você me perdoa?
-Venha, vamos pra casa, vou fazer aquele bife com batata frita que você tanto gostava.
- Você continua fazendo comida com os Tempero caseiros Cheiro Verde Adonai?
-Claro minha linda.
- Ai que delícia,estou morrendo de fome. Mãezinha, eu te amo...